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Newsletter Dezembro/20...


Queridos alunos e amigos, Em Novembro, teremos aulas de Yoga presenciais e vamos continuar com as nossas Reflexões, Conversas e Práticas informais online sobre os mais diversos temas em relação com o Yoga e a Espiritualidade, animadas pela inspiração e necessidade energética do momento e sempre de acordo com o Dharma, respeitando assim a Ordem Cósmica. Estes momentos de partilha são gratuitos e reservados aos alunos do Shala🌿 ou aos alunos que frequentaram as aulas online ao longo dos últimos meses, e têm como objectivo sustentar e complementar a prática de Yoga ao quotidiano, além do tapete. Este mês, o Padma Yoga Shala🌿 estará ENCERRADO no feriado, terça-feira, 1/12/20 e depois entre segunda-feira, 21/12/20 e sexta-feira, 01/01/21, para descanso. Se tudo correr bem, reabrirá na segunda-feira, 04/01/21, com horário actualizado e adaptado à condição do momento.


Este mês, tendo em conta que o Shala estará encerrado durante as duas últimas semanas do mês, estará excepcionalmente ABERTO no dia de LUA NOVA 🌑, segunda-feira, 14/12/2020, não interferindo assim com o funcionamento regular das nossas aulas. Durante o mês de Novembro, o Padma Yoga Shala🌿 continuará a estar ABERTO às quartas-feiras de manhã, entre as 8h30 e as 10h30, para os alunos que queiram aproveitar para fazer a sua auto-prática quotidiana, beneficiando assim da energia do grupo e do espaço.

Abaixo encontram o horário actualizado para o mês de Dezembro.

Boas práticas!

(Para quem faz sentido, encontram abaixo a mais longa e muito provavelmente a última das Newsletters que partilho neste formato, de tal maneira sinto que esgotei tudo o que tinha para dizer, seja através das minhas palavras, seja através das palavras de outros, quando coloco ligações externas em palavras-chave… É tempo, para mim, de dedicar menos tempo às palavras e mais energia às acções. Continuarei, obviamente, a partilhar as minhas reflexões nas aulas presenciais e online, assim como directamente no website, sempre que as palavras brotarem espontaneamente do meu coração, mas apenas quando isso acontecer. Recomendo vivamente que acolham apenas aquilo que ressoa e vibra convosco, até porque se as minhas afirmações estivessem submetidas aos tão famosos e aclamados “polígrafos” actuais, muito provavelmente seriam classificadas como “fake news”, por falta de provas e referência de fontes fidedignas… Relembro que não vos posso dar provas do que afirmo e que as minhas fontes não são “fontes”, mas sim a “FONTE”! Porque o verdadeiro Conhecimento nunca vem do exterior e não precisa de “provas” já que, tal como as minhas palavras, brota de dentro de nós, do centro do nosso coração e traz-nos a certeza inabalável da VERDADE que SOMOS… A todos os que sentem o apelo para continuar a ler, boas leituras!)

“Escrever, é uma forma de falar sem ser interrompido.”

Jules Renard

Namaste 🙏💚🌱




« Caro 2020, Escrevo-te hoje, porque me pareceu justo e correcto que, depois de tantos meses a falar sobre ti, tirasse também um momento para “falar” contigo. Faço-o por escrito, sempre tenho a possibilidade de “pensar” melhor no que quero realmente dizer-te e escolher a melhor forma de o fazer, respeitando satya. Ficas assim com tempo e liberdade para me leres e releres se assim o desejares e, obviamente fazeres uso do teu direito a responder-me. À medida que fores lendo as minhas palavras, vais compreender que tenho estado à escuta de tudo o que tens tentado transmitir, alerta às tuas mensagens, quer tenham sido dirigidas directamente a mim, quer tenham sido dirigidas ao colectivo que representa a Humanidade, e que estou a fazer o melhor que posso para aprender contigo e confiar nos teus ensinamentos.

Confesso que não percebi imediatamente o importantíssimo papel que vieste desempenhar, a tua missão e o impacto que terias na minha vida (e na vida de todos os seres humanos e mesmo no próprio destino da Humanidade…), mas não posso dizer que não tenha sentido que serias “diferente” de todos os outros! Basta ver a forma como chegaste até mim, presenteando-me com o “primeiro dia do ano” mais longo da minha vida. Saí do sul da Índia apenas uma hora depois de teres chegado, passei por Paris, viajei até Lisboa, para aterrar nesta ilha do meu 💚 no meio do Oceano Atlântico, logo a seguir ao almoço, nesse mesmo “primeiro dia”. Para finalmente abraçar quem mais amo! Quem poderia imaginar que afinal não seria apenas um dia com um “tempo diferente”, mas que continuarias a revelar a tua diferença dia após dia, agindo à escala planetária, primeiro deixando em suspenso e depois transformando a vida de milhões de pessoas, em todo o mundo?

“O que somos, o mundo o é. O nosso problema é o problema do mundo.” Jiddu Krishnamurti



É verdade que, ao perceber as tuas intenções, precisei de algum tempo para encontrar o equilíbrio necessário entre esforço e desapego, que me permitisse receber-te, acolher-te, compreender-te, aceitar-te e mesmo respeitar-te, tal como foste, és e ainda serás, (fiel a ti mesmo até ao último instante, disso não tenho dúvidas)… Com o passar dos dias, um dia de cada vez, fui aprendendo a conhecer-te melhor e, mais importante ainda, fui aprendendo a conhecer-me melhor, a conhecer melhor os outros e o mundo que nos rodeia, através de ti, dos eventos que trouxeste contigo e das oportunidades únicas que me ofereceste para integrar e colocar em prática tamanhos ensinamentos. À medida que ia decidindo a melhor forma de me posicionar, face a cada um desses eventos (tantas vezes brutais e violentos, para a grande maioria…), à medida que ias arrancando dos meus sentidos e da minha mente, pela tua simples presença, os inúmeros véus da ignorância que iam sendo revelados à luz da consciência, à medida que ia permitindo que fosses desconstruindo o meu ego, apaziguando os meus apegos e repulsas e libertando os meus medos, através de um imenso trabalho de observação, interiorização, reflexão e integração, então todo o estudo de Yoga, Vedanta e todas as outras formas de auto-conhecimento que fui desenvolvendo ao longo dos últimos vinte anos, iam revelando a sua utilidade, a sua verdadeira função e aplicação prática, ajudando-me a manter a estabilidade e o centro, mesmo face a tamanhas revelações e transformações.


“Nunca é tarde para renunciar aos nossos preconceitos. Não existe um modo de pensar ou de agir, por mais antigo que seja, que possa ser aceite cegamente. O que hoje todos repetem ou o que é transmitido em silêncio sob a forma de verdade pode revelar-se falso amanhã, mera cortina de fumo de opinião, que alguns tinham acreditado ser uma nuvem que faria cair chuva fertilizante sobre os seus campos. Henry David Thoreau



Outros anos, também eles dignos representantes de épocas igualmente transformadoras (mas desta vez de um ponto de vista pessoal), souberam manifestar-se dentro da Ordem e do Tempo Divino, de forma a que estivesse preparada para a tua chegada e, sinceramente, estou muito grata por esta “preparação prévia”. Recentemente, alguns deles (como 2016 e 2017, por exemplo), representaram um verdadeiro teste à minha capacidade de resistência e resiliência. Foram anos muito mais dolorosos que tu (e olha que tu te esmeraste, a nível de adversidades…), em que cada dia foi vivido como uma prova à minha vontade de sobrevivência e cada instante sugeria a possibilidade de uma transformação profunda. Escolhi abraçar incondicionalmente os inúmeros e titânicos desafios que o Universo me ia trazendo e decidi ultrapassá-los um por um, sem nunca baixar os braços, sem nunca perder a minha autenticidade e integridade, apesar do que por vezes é dito sobre mim e as “minhas lutas”. Com a ajuda de uma força interior que até hoje não sei de onde veio, fiquei desde essa altura com a certeza inabalável que, existe dentro de cada um de nós, a possibilidade de renascer das nossas próprias cinzas, em toda e qualquer situação, porque nunca estamos verdadeiramente sós. Digo-o com a pureza da alma e não com a arrogância do ego. Afirmo-o a partir da imensidão do coração e não das limitações da mente e, por essa razão, tenho por esses anos difíceis e desafiantes, que me trouxeram essas experiências que tocaram o âmago da minha essência, o maior respeito e gratidão. Todos vivemos este tipo de experiências, infelizmente, a maioria das vezes, só depois de terem passado, lhes damos o devido valor… Penso que contigo, vai acontecer mais ou menos o mesmo…


“Toda a nossa existência, todos os nossos livros, toda a nossa esperança é amanhã, amanhã, amanhã. Esta cedência que fazemos ao tempo é a maior tristeza.” Jiddu Krishnamurti


Nessa altura, em que tanto me foi retirado e, ao mesmo tempo, tanto me foi oferecido, pude perceber que cada coisa acontece exactamente como é suposto acontecer, para que tenhamos coragem suficiente para nos tornarmos na pessoa que estamos destinados a ser e possamos alcançar o objectivo de vida que nos propusemos alcançar, no momento da nossa encarnação. Nunca me senti tão esmagada e assoberbada pelas circunstâncias da vida como nessa altura de 2016/2017 e, ao mesmo tempo, tão amparada e protegida pela conjuntura do Universo, que não só nunca me abandonou, como fez chegar até mim, pelas mãos e corações de seres maravilhosos, uma ajuda preciosa sem a qual não teria provavelmente sobrevivido! A todos esses seres maravilhosos (eles sabem bem quem são!), continuo a dedicar, cada dia, a minha mais profunda gratidão. 🙏💚 Sem todas essas adversidades e essas dádivas (o objectivo é a União, mas não podemos esquecer que ainda vivemos num mundo dual, em que cada situação se apresenta sempre sob dois aspectos distintos…) o Padma Yoga Shala🌿 talvez nunca tivesse deixado de ser o “sonho” de um hipotético futuro, para materializar-se no espaço que conheces hoje. Foram, para mim (tal como tu, 2020, estás a ser para milhões de pessoas no mundo inteiro), anos que me retiraram tudo, só para me mostrar que quando aceitamos abrir mão de tudo o que pensamos que temos e somos, quando aceitamos reconhecer a diferença entre o que é efémero e o que é eterno, quando aceitamos confiar na sabedoria do Universo e entregamos os frutos das nossas acções a Īśvara, com fé e confiança, ficamos finalmente prontos para SERquem realmente somos, caminhar no nosso caminho, desenvolver o nosso karma e realizar o nosso svadharma! Graças a eles, tu 2020, apanhaste-me de surpresa, mas não me apanhaste desprevenida! Graças a eles, já tinha as ferramentas necessárias, para lidar, sem medo, com todas as dificuldades que nos foste trazendo, dia após dia!


“A crise não é económica, não são as guerras, a bomba atómica, os políticos, os cientistas. A crise está dentro de nós, a crise está na nossa consciência.” Jiddu Krishnamurti


Mas tu conseguiste algo único! Tu não viraste do avesso a vida de uma, duas ou meia dúzia de pessoas… Tu, sozinho, desencadeaste a maior revolução interior e exterior, de que há memória na história da Humanidade! Tu, 2020, trouxeste à Luz tudo o que precisava ser visto, limpo, activado, sincronizado e ajustado, dentro de cada ser humano, de cada instituição, comunidade, região, país, sistema e no próprio planeta, para que todos os que assim o desejassem, pudessem ver o que precisava ser visto, pudessem sair do conforto artificial e da apatia que se manifesta nas pessoas quando se encontram em negação face à realidade ou vivem com um sentimento de pequenez e impotência, face à imensidão dos problemas do mundo. Se a Humanidade não criar uma resistência e uma revolta face aos ensinamentos que nos trouxeste pela tua presença e pelos questionamentos suscitados, deixar-nos-ás também a possibilidade de ver crescer uma semente de reparação, reconexão e cura, de mudança de paradigmas, individuais e colectivos… Tu, 2020, empurraste a Humanidade para um momento histórico, em que cada ser humano, dentro de si e à sua volta, se encontra face a uma batalha entre o Bem e o Mal, entre a Luz e a Sombra, entre a Virtude e a Fraqueza, entre o Amor e o Medo, mesmo se muitos ainda não conseguem olhar para dentro de si mesmos e, voltados apenas para o exterior, continuam focados no vírus, nas medidas draconianas impostas para evitar a sua propagação, nas consequências de extrema brutalidade e violência, com as quais toda a população mundial terá que lidar nos próximos anos… Tu, 2020, colocaste cada um de nós, tal Arjunas desesperados, no meio do campo de batalha de Kurukṣetra, impotentes e frustrados, face a uma inevitável batalha interior (e exterior…), da qual não podemos escapar, tendo em conta que do seu resultado depende o restabelecimento da Ordem Cósmica no Universo… Tu, 2020, tens o mérito de ter conseguido empurrar a Humanidade inteira para a sua Noite Negra da Alma, quer os indivíduos estejam ou não conscientes disso! Algumas pessoas acham que exagero, quando faço tal comparação, mas o que é certo é que não conheço uma única pessoa que não tenha, num momento ou noutro, sido confrontada a um profundo questionamento interno e/ou externo, que não tenha sido abalada do ponto de vista moral ou ético… E, se realmente houve alguém que tenha atravessado cada um dos teus dias sem se sentir afetado por tudo o que está a acontecer, tenho a certeza que é apenas uma questão de tempo, até se ver igualmente envolvido no rodopio emocional que nos trouxeste. Todos temos os nossos “gatilhos” e tu, através deles, deste-nos a possibilidade de colocar tudo em questão. A forma como vivemos, a forma como cuidamos de nós, como tratamos os outros, como agimos no planeta, tudo foi colocado em questão! Trouxeste-nos uma oportunidade para crescer, alcançar a maturidade necessária para nos tornarmos finalmente RESPONSÁVEIS pelos nossos pensamentos, pelas nossas palavras e, acima de tudo, pelas nossas acções! Tu, 2020, desempenhaste o papel de um DESPERTADOR gigante e deste, a quem ouviu o teu apelo, a possibilidade de deixar de olhar para o seu umbigo e abrir o seu coração ao mundo! Cada um à sua maneira, cada um dentro das suas possibilidades…


“Somos todos visitantes deste tempo, deste lugar. Estamos só de passagem. O nosso objetivo é observar, aprender, crescer e amar… E depois vamos para casa.” Provérbio Aborígene


Mas sabes, nem toda a gente estava/está pronta para esse conflito dhármico, que está a acontecer dentro e à volta de cada um de nós ou para acolher essa oportunidade de transformação, de transmutação… Aliás, muitos continuam à procura do “snooze” ou do botão para desligar esse despertador gigante que és, sem consciência do que está a acontecer e sem vontade de despertar… É importante perceber que não o fazem de propósito ou por mal! Não é que não te querem ver, não querem perceber os teus alertas ou que não ouvem o imenso grito de desespero de todos aqueles que estão em profundo sofrimento, por causa de tudo o que vimos acontecer ao longo dos teus meses, por causa da brutalidade e da violência impostas, que estão a deixar consequências irreparáveis nas vidas pessoais, profissionais, familiares e sociais de todas as pessoas, independentemente da idade, do extrato social, do sítio do planeta onde se encontram… Simplesmente, é preciso perceber que não estávamos todos no mesmo ponto quando chegaste, não sofremos todos o mesmo abalo ao mesmo tempo, não tivemos todos a mesma preparação e não estamos, assim, todos equipados da mesma forma, para fazer face ao impacto que a tua energia transformadora está a manifestar na matéria. E não há dúvida que, à medida que vamos ultrapassando determinados desafios e vamos desenvolvendo a nossa capacidade de empatia e de ligação com o Universo, vamos ficando mais aptos a construir pontes de coração a coração e a poder ajudar os outros a ultrapassar esses mesmos desafios, sejam eles de ordem material, psicológica, emocional ou espiritual, se houver abertura e disponibilidade de parte a parte, para que isso aconteça…


“Se não intuirmos a essência do mar, a propriedade da água, das ondas, da grande vitalidade da maré que vai e vem, como poderemos ser sensíveis às relações humanas?” Jiddu Krishnamurti



Enquanto houver incompreensão, divisão, separação, distância e falta de empatia, esse processo de cura não pode ser iniciado… Enquanto não sentirmos individualmente, no nosso coração, como uma certeza inabalável (śraddhā) que o EU não é diferente do NÓS, então não estaremos prontos para agir colectivamente. Mas pouco a pouco, um a um, deixaremos de pensar que estamos sozinhos e começaremos a sentir que somos milhões, no mundo inteiro. E a divisão dará lugar à UNIÃO, ao Yoga!


“Há algo que não é democrático quando um político se distancia do mundo natural, da rua e das pessoas que governa. Quando maior é a distância física entre os decisores e aqueles que são afectados pelas suas decisões, menos relevantes estas parecem ser para aqueles que sentem o seu impacto.”

Erling Kagge



Para todos aqueles que, em anos precedentes ou vidas precedentes, já passaram por certas transformações profundas de forma consciente e as usaram como catapulta para aceder a novos patamares de consciência e de conhecimento de si mesmos e se encontram agora imunes ao medo, é importante cultivar a paciência e compaixão para evitar julgamentos, praticando uma atitude de kṣānti, uma pacífica adaptabilidade, que permitirá aceitar comportamentos e situações que não podem ser mudadas e abrir mão de certas expectativas em relação aos outros e às situações! Mas, ao mesmo tempo, é indispensável estabelecer limites saudáveis que permitam preservar a autenticidade, integridade e sanidade psíquica, emocional e espiritual e, para que isso aconteça, não se pode abrir mão da prática de arjavam, a retidão, de modo a fazer coincidir intenções, palavras e acções, da prática de tattvajñānārthadarśanam, o foco e clareza na verdade, procurando o conhecimento da Realidade e reconhecendo que não somos diferentes, nem estamos separados dela e finalmente, a prática de adhyātmajñāna nityatvaṁ, de forma a desenvolver a capacidade de nos mantermos constantemente atentos e conscientes do SER que realmente somos.


“Quando vivermos todos os dias com «o que é» e observarmos «o que é», não apenas lá fora, mas interiormente, criaremos então uma sociedade sem conflito.” Jiddu Krishnamurti



Não nos podemos esquecer que, aconteça o que acontecer, “EU SOU BRAHMAN”, a Consciência Universal. Aconteça o que acontecer, além do corpo, da respiração e da mente, nunca seremos mais que Brahman. Aconteça o que acontecer, também nunca seremos menos que Brahman. E só ao realizar esta nossa natureza essencial, poderemos libertar-nos de avidyā (a ignorância metafísica da nossa verdadeira essência) e deixar assim de alimentar todas as outras causas de aflição (kleśa) que dependem do seu terreno fértil para crescer. Só assim, poderemos percorrer o caminho que nos leva ao fim do sofrimento e à LIBERDADE (mokṣa).



Sūtra II.3

अविद्यास्मितारागद्वेषाभिनिवेशाः क्लेशाः॥३॥

avidyā-asmitā-rāga-dveṣa-abhiniveśaḥ kleśāḥ ॥3॥

«As causas do sofrimento são : a ignorância, o ego, o apego, a repulsa, o medo [da morte].».

Sūtra II.4

अविद्याक्षेत्रमुत्तरेषां प्रसुप्ततनुविच्छिन्नोदाराणाम्॥४॥

avidyā kṣetram-uttareṣām prasupta-tanu-vicchinn-odārāṇām ॥4॥

«A ignorância [avidyā] é o terreno onde crescem os outros, quer estejam latentes, fracos, intermitentes ou intensos.».



Mas sabes 2020, tenho que admitir que não poupaste esforços, para que todos se sentissem implicados nesta transformação profunda da Humanidade, independentemente do local onde se encontravam quando chegaste. Entende, por favor, que a palavra “local”, tal como empregue aqui, não se refere apenas à localização geográfica, mas também pessoal, social, psicológica, emocional, espiritual. Foi precisamente a partir desse “local” em que nos encontrávamos quando chegaste, que nos foi oferecida a oportunidade de olhar para as manifestações dos kleśa, das causas de sofrimento, tanto dentro de nós como à nossa volta e de escolher como nos posicionaríamos a partir daí, enquanto indivíduos e, quem sabe, mesmo enquanto sociedade.

“É fácil viver no mundo seguindo a opinião dos outros; é fácil viver na solidão seguindo a nossa própria opinião, mas grande é o homem que, entre a multidão, guarda, com perfeita amenidade, a independência da solidão.” Erling Kagge

Para a maioria, o primeiro impacto veio através de abhiniveśa, o medo da morte ou o forte apego à vida! Muitos continuam ainda a debater-se com esta aflição e, consequentemente, continuam a agarrar-se a toda e qualquer medida de “segurança”, que os mantenha na ilusão temporária de que têm alguma espécie de controle sobre a vida e sobre a morte…

“A vida é movimento, um constante movimento em relação, e quando o pensamento procura impedir esse movimento, prendendo-se ao passado, como memória, fica com medo da vida.” Jiddu Krishnamurti



Já se sabe, esta segurança ilusória é apenas um reflexo de avidyā, mas quando este kleśa está intensamente activado, não vale a pena fazer apelo ao bom senso ou à coerência. Só através do reconhecimento da nossa natureza divina, eterna e permanente, só através do reconhecimento da Consciência que realmente somos, esta mesma Consciência que está na origem e, ao mesmo tempo, habita toda a vida no Universo, poderemos libertar-nos do medo da morte. E, ainda assim, não ficamos livres de um forte apego à vida! Mas, sentindo a UNIÃO com o todo, autorizamo-nos a perder o medo da morte e a aceitar a vida tal como ela é… E, apesar das saudades que sabemos que vamos sentir, quando vemos partir alguém que tanto amámos ou que tanto nos inspirou, também sabemos que, na nossa essência, nunca estivemos e nunca estaremos separados dessas pessoas. Então, fica apenas a gratidão por todos os momentos partilhados enquanto ondas de um mesmo Oceano de água salgada… (com muito amor e gratidão pela “onda de inspiração” na minha vida, que regressou há pouco ao Oceano 🌹)

“Morro com aquele que morre e nasço com aquele que está a nascer, não estou contido entre o meu chapéu e as minhas botas…” Walt Whitman



Como bem sabes, desde que tive o meu encontro pessoal com a Morte em 2002 e senti esta Plenitude que somos, esta União que somos, esta Consciência que não tem princípio nem fim, iniciei o meu processo de libertação de abhiniveśa. Não, não vi a “luz ao fundo do túnel” de que falam algumas pessoas e não quero dizer com isto que não tenho um forte apego à vida, ou que não estou feliz por estar a viver esta magnífica experiência que é a vida na Terra! Simplesmente, não tenho medo de morrer. Não é fácil ser compreendida por quem vive ainda sob a influência desta causa de aflição, como podes calcular… Dificilmente acreditam em mim, quando partilho esta experiência intensa, que transformou completamente a minha visão da vida e do mundo. No início, quando falava sobre essa experiência, tentavam convencer-me que estava enganada e apenas “pensava” que tinha razão… Em linguagem corrente, disseram-me que estava a propagar “fake news”… 😂 Como se fosse possível confundir o resultado de uma teoria (resultado do pensamento e da mente), com o resultado de uma experiência (resultado do coração e de buddhi, o nosso intelecto)… “Se fosse com alguém que amas muito, ias ver que não sentirias a mesma serenidade!”, ouvi quase todas as vezes que ousei abordar o assunto, por quem não conseguia fazer de outra forma senão negar ou desvalorizar, o que não compreendia. E eu, ainda no início da minha caminhada espiritual nesta encarnação, deixei de falar no assunto com as outras pessoas e iniciei um novo questionamento…

“Se o que tens a dizer não é mais belo que o silêncio, então cala-te.” Pitágoras



Teriam razão? Se fosse confrontada à morte noutras circunstâncias que não implicassem a “minha” morte (entenda-se a morte do meu corpo físico), mas a morte de alguém que fosse muito importante para mim, perderia eu a serenidade, a fé e a consciência de que tudo, absolutamente TUDO, acontece no seu Tempo Divino, segundo uma Ordem Cósmica? O Universo achou por bem não me deixar com esta dúvida que poderia revelar-se um entrave nesta caminhada espiritual e, em 2011, trouxe-me uma nova experiência que confirmou a resposta dentro do meu coração. Naquele que foi o dia mais horrível e traumatizante da minha vida, entre maus-tratos, negligência e muito, muito sofrimento, enquanto me cosiam o corpo (a alma essa, manteve-se rasgada durante vários anos e foi preciso um imenso trabalho para recuperar todos os estragos feitos em apenas algumas horas…), o tempo ia passando sem que soubesse se estava vivo aquele ser que tanto tinha desejado, que já tanto amava com um Amor que não tem começo nem fim e que tanto tinha lutado para trazer ao mundo… E sabes que mais, 2020? Apesar do cansaço, da dor física, da revolta e do sentimento de injustiça pela forma como tinha sido tratada num dos momentos de maior vulnerabilidade (e curiosamente, de maior força!) que uma mulher pode experienciar, ali estava eu, minuto após minuto, com a mesma sensação de serenidade, aceitação, união e plena compreensão do Tempo Divino, da Ordem Cósmica! Ali estava eu, a acolher o meu segundo filho, sem saber se estava a acolher a vida ou a morte. Ali estava eu, em conflito com o comportamento humano, mas em PAZ com a essência do Universo! Não estava a abrir mão da vida, como me voltaram a dizer aqueles que ainda não conseguiram compreender a diferença entre a teoria e a experiência… Simplesmente, mais uma vez, num processo libertador, a VIDA e a MORTE revelaram-se-me como uma única Realidade e a dualidade relativa a este tema que tanto aflige o ser humano e que é uma das maiores causas do seu sofrimento, ficou ali, naquele quarto de hospital, juntamente com os despojos de mim mesma que já não serviam o meu propósito de vida… Assim como a opinião de todos aqueles cuja visão não é ainda capaz de compreender a experiência do Ilimitado que vivenciei… Foi com a mesma paz e serenidade que, ao longo dos 3 anos e meio de vida do Shala, vi partir três alunos e acompanhei a chegada de três novos seres, com a consciência de que a vida e a morte são apenas as duas faces da mesma moeda…

“Se quisermos ver no mundo espiritual, temos de projectar uma luz a partir de nós próprios.” Omraam Mikhaël Aïvanhov



Destas duas experiências pessoais sobre a vida e a morte, resultou a minha “imunidade” face à pressão externa crescente, que tu nos trouxeste, para que este kleśa fosse activado em todas as pessoas, irracionalizando-as, paralisando-as, destituindo-as do seu livre-arbítrio… Diria que foi por esta razão que nunca me deixei “enganar” ou “manipular”! Sim, não há dúvidas, tu trouxeste-nos um vírus. Não há como negar tal coisa, obviamente! Trouxeste-nos um vírus que matou muitas pessoas, como tantos outros vírus ou bactérias que matam tantas outras pessoas (sempre me perguntei porque se falaria tão pouco da tuberculose, por exemplo… será porque afecta sobretudo os mais pobres?). Mas quando, por detrás dos discursos oficiais, se tornou evidente a intenção de propagar o medo e intensificar a influência de abhiniveśa nas populações e comecei a abordar a possibilidade de uma manipulação da informação ou de um conflito de interesses na gestão desta “coisa do vírus”, soube imediatamente que encontraria imensa resistência, por parte de quem estava sob a influência de abhiniveśa

“Quanto mais a sociedade se distancia da verdade, mais ela odeia aqueles que a revelam.” George Orwell




Estávamos em “guerra”, havia um “inimigo invisível” e pessoas a lutar na “linha da frente”… Senti-me isolada desde o início, já que o meu discernimento não me deixou misturar o que à partida era um problema sanitário, com este discurso bélico propagado pelos governantes mundiais. Por natureza, desconfio dos discursos de guerra quando saem da boca de um governante, seja qual for a situação em que são aplicados, pois fazem sempre apelo ao medo e à divisão e trazem à superfície memórias dos momentos mais negros da história da Humanidade… Mais desconfiei ainda, quando foram vivamente criticados todos os que não seguiram este pensamento e discurso únicos e tentaram propor alternativas que poderiam ter-se revelado menos violentas a médio e longo prazo… E agarrei-me ao discernimento vibratório como nunca antes na minha vida, procurando sentir em todas as situações, a vibração por detrás de cada palavra, a intenção escondida por detrás de cada intenção manifestada. Muito em breve, estaria associada ao “campo inimigo” dos conspiradores, cuja falta de empatia fazia deles pessoas inconscientes, irresponsáveis, alienadas, constantemente submetidas aos “polígrafos”… E a inversão de valores a que assistimos ao longo de todos os teus meses, continuava a aumentar, dia após dia, apesar de todas as evidências, que noutras alturas necessitariam apenas de bom-senso, para se revelarem aos olhos de todos, para serem rejeitadas pela maioria…

“Claro que o povo não quer a guerra. Mas, afinal, são os líderes do país que determinam a política, e é sempre uma questão simples arrastar o povo, seja uma democracia, uma ditadura fascista ou um parlamento, ou uma ditadura comunista. Com voz ou sem voz, o povo pode sempre ser levado às ordens dos líderes. Isso é fácil. Basta dizer que estão a ser atacados, denunciar os pacifistas por falta de patriotismo e expor o país a um perigo maior. Funciona da mesma forma em qualquer país.”

Herman Göring - nos julgamentos de Nuremberg



“O problema não sou eu! Eu não tenho medo de morrer… Mas e se alguém morre por causa de mim?”, diziam-me… Como poderia eu explicar que a raiz deste medo era a mesma, mas que a forma como estava a ser apresentada, aumentava ainda mais o domínio desta causa de aflição sobre os pensamentos e sentimentos de quem acreditava neles? Como poderia eu explicar que isso dificilmente seria anódino? Quem acreditaria em mim? Quem acreditaria em todos os outros que, como eu, passaram meses a alertar para as incoerências do que estava a acontecer à nossa volta? Ainda hoje, quantos continuam sem acreditar, apesar de milhões de pessoas no mundo inteiro, estarem sentirem que estão a ser confrontadas com a escolha entre “morrer do vírus ou morrer de fome”, apesar da taxa de mortalidade deste vírus ser amplamente inferior à da fome?

“É bom duvidar, ter uma mente que questiona, que não aceita; uma mente que diz : não podemos continuar a viver assim, desta maneira cruel e violenta.” Jiddu Krishnamurti

Podem chamar-me conspiradora à vontade (sempre ouvi dizer que o que os outros pensam e dizem de mim, diz mais sobre eles, que sobre mim e sinceramente não discordo desta afirmação), mas continuo a dizer que “eles” foram muito espertos… Se já é difícil aceitar o carácter efémero do nosso corpo, então lidar com a responsabilidade da morte de outrem, mesmo involuntária surge como algo inaceitável, já que o instinto natural de preservação da Vida, faz parte das características de base de toda e qualquer pessoa que seja psicológica e emocionalmente saudável. Depois de colocar nas mãos de cada indivíduo, a responsabilidade pela vida dos outros, tudo o que foi em seguida imposto como forma de “prevenção”, foi muito mais facilmente aceite, por toda e qualquer pessoa com o mínimo de empatia e compaixão pelo próximo. E todos aqueles que, “sem” véus ou com “diferentes” véus de ignorância, tiveram a coragem de manifestar o seu desacordo com estas medidas, à medida que os teus fatídicos dias iam passando, foram sendo ignorados, zombados, silenciados, censurados, rebaixados, atacados…

“Ser diferente não é uma coisa boa nem má. Significa simplesmente que você é suficientemente corajoso para ser você mesmo.” Albert Camus



Confesso que foi isto o que realmente o que mais me magoou, ao longo de todos estes meses, apesar de nunca me ter feito desistir de procurar a verdade ou de me posicionar do seu lado, mesmo fazendo parte de uma minoria… Nunca me dei bem com a injustiça e não gosto de ouvir dizer mentiras sobre pessoas que estão a fazer as coisas de forma correcta, justa e em acordo com o Dharma… Quando essas mentiras são ditas sobre mim ou sobre o Shala🌿, não sinto necessidade de me defender, já que sei onde está a verdade e isso é mais que suficiente para mim. Mas e quando, para além da reputação daqueles que, apesar de terem dado inúmeras provas das suas capacidades e experiências para que as suas conclusões fossem tidas em conta, continuam a ter que implorar pelo direito ao diálogo, também a vida de milhões de pessoas, em todas as partes do planeta, fica ameaçada? Teria sido de acordo com o dharma, aceitar tamanha parcialidade e manifestação de interesses pessoais? Teria sido justo privilegiar a informação chegada pelos “polígrafos” inventados pelos meios de comunicação social que todos sabemos que são subsidiados a quase 100% pelas mesmas pessoas que impuseram o tal pensamento único e incentivaram a censura de todos os que discordaram desse pensamento, fazendo orelhas moucas a todos os especialistas amplamente reputados e mesmo premiados (nunca se desacreditou tantos prémios Nobel em tão pouco tempo, entre outros exemplos de mérito reconhecido por Serviço do Bem Comum…), que durante meses tentaram fazer ouvir a sua voz? De que me serviriam todos os anos de prática de Yoga passados a tentar desenvolver o indispensável discernimento capaz de nos libertar de avidyā, se não fosse para fazer uso dele quando é mais necessário? Só ao reconhecer a minha própria ignorância, posso sentir um verdadeiro apelo para procurar da Verdade…



“A lenda diz que, um dia, a Verdade e a Mentira se cruzaram.

- Bom dia, disse a Mentira.

- Bom dia, disse a Verdade.

- Belo dia, continuou a Mentira.

E então, a Verdade foi verificar se era verdade. E era.

- Lindo dia, respondeu então a Verdade.

- O lago está ainda mais bonito, disse a Mentira com um lindo sorriso.

Então a Verdade olhou para o lago para ter a certeza e viu que a Mentira dizia a verdade e acenou com a cabeça.

A Mentira correu para a água e exclamou…

- A água está ainda mais bonita e quente. Vamos nadar!

A Verdade verificou mais uma vez, tocando na água com os dedos e viu que, efectivamente o lago estava realmente lindo e a água estava quente. Assim, a Verdade baixou a sua guarda e confiou na Mentira. Tiraram ambas a roupa, entraram na água e nadaram calmamente.

Pouco depois, a Mentira saiu da água, pegou nas roupas da Verdade, vestiu-as e foi-se embora.

A Verdade, ao dar conta do sucedido, incapaz de vestir as roupas da Mentira, e certa de sua pureza e inocência, nada tendo do que se envergonhar e não vendo outra opção que lhe fosse coerente, decidiu caminhar nua na rua, aos olhos de todos. No entanto, curiosamente, para as pessoas, foi mais fácil aceitar a Mentira vestida de Verdade, do que olhar para a Verdade nua.

E foi assim que, entristecida e abandonada, a Verdade acabou por se refugiar no fundo de um poço, onde apenas aqueles que verdadeiramente a procuram e estão dispostos vê-la, nua e crua, a encontrarão…” Este texto é atribuído a uma parábola judaica sobre

a Verdade e a Mentira.



Felizmente, depois de muitos dos teus dias e muitas lutas solitárias destes Guerreiros Luminosos para quem a Verdade, depois de ser vista, não poderia ser “des-vista” ou abandonada no fundo de um poço escuro onde ninguém a encontrasse, estes seres corajosos para quem os valores éticos que defendiam, tinham mais valor que as suas próprias reputações e mesmo remunerações, estas pessoas para quem desistir da democracia e da liberdade nunca foi uma opção, houve cada vez mais pessoas a iniciar um questionamento interno e profundo sobre os os limites do “normal”, do “saudável”, da coerência e do bom senso? E, acima de tudo, sobre QUEM deve definir esses limites e em que bases devem assentar as suas fundações? Apesar de parecermos poucos ou isolados, para quem já sabe para onde olhar, sabe que há milhões de pessoas a levantar-se, a fazer ouvir a sua voz e a declarar que não aceitarão menos que a VERDADE, pois só ela poderá proteger a LIBERDADE!

“Primeiro ignoram-te, depois riem de ti, depois atacam-te e no fim, TU VENCES.” Mahatma Gandhi



Não há dúvidas, que fui privilegiada por ter tido a possibilidade de ser directamente e pessoalmente confrontada com o tema da vida e da morte, em 2002 e novamente em 2011 e estou muito grata por isso!

“Assim como a alma, vestindo este corpo material, passa pelos estados de infância, mocidade, virilidade e velhice, assim, no tempo devido, ela passa a um outro corpo, e em outras encarnações, viverá outra vez. Os que possuem a sabedoria da doutrina esotérica (interior), sabem isto e não se deixam influenciar pelas mudanças a que está sujeito o mundo exterior.” Bhagavad-Gītā, 2.13

Mas não tem sido fácil lidar com todo o medo que vejo à minha volta, sabendo que não há nada que possa fazer para ajudar as pessoas a libertar-se dele… Se já acham que sou irresponsável, inconsciente, conspiradora, de cada vez que manifesto publicamente o meu total desacordo com estas medidas que considero completamente desproporcionadas relativamente a este vírus, comparativamente à percentagem mais elevada de outras causas de morte que são esquecidas ou ignoradas (sem desvalorizar o sofrimento de todos aqueles que foram directamente afectados por ele, tal como não desvalorizo o sofrimento associado a qualquer outra doença ou causa de morte), ou de cada vez que declaro a minha intenção em não consentir que interfiram com a minha liberdade ou de não pactuar com essas mesmas medidas, cujo custo estamos longe de imaginar (a todos os níveis), imagina o que teriam pensado ou teriam dito se, citando a Bhagavad-Gītā, tivesse tentado explicar que o “tempo não existe”, que a “morte é uma ilusão” ou que “a morte é tão inevitável para quem está vivo, como a vida é inevitável para quem morre”? Imagina!! Com todo o medo que foi veiculado pelos meios de comunicação desde o teu primeiro dia, quantas pessoas achas que estariam prontas para acreditar que o medo da morte nos afasta da possibilidade de encontrar o verdadeiro sentido da vida?

“Sabe, ó príncipe de Pându, que nunca houve tempo em que não existíssemos eu ou tu, ou qualquer destes príncipes da terra; igualmente, nunca virá tempo em que algum de nós deixe de existir.” Bhagavad-Gītā, 2.12

“Conhece esta verdade, ó príncipe! O Homem real, isto é, o Espírito do homem, não nasce nem morre. Inato, imortal, perpétuo e eterno, sempre existiu e sempre existirá. O corpo pode morrer ou ser morto e destruído; porém, aquele que ocupou o corpo, permanece depois da morte deste.” Bhagavad-Gītā, 2.20



Sabes 2020, não se trata simplesmente dos desafios que cada um de vós, anos especiais das nossas vidas, enquanto representantes do tempo e do karma que transportamos de vida em vida, vão trazendo para o nosso dia-a-dia. Tenho perfeita consciência que esse karma, apesar de ser manifestado por vós sob a forma de “privilégio” ou “desafio”, é criado por nós, seres humanos, a cada pensamento, cada palavra, cada escolha e cada acção, consciente ou inconsciente e é, por essa razão, da nossa responsabilidade. A forma como escolhemos lidar com esses privilégios e desafios e os ensinamentos que estamos prontos a integrar depois de os termos vivenciado, é da nossa responsabilidade. E desse processo dependerá o resto da nossa vida e de todas as nossas vidas futuras, até que chegue a Libertação (mokṣa) deste ciclo de reencarnações (saṃsāra).

“O vento matinal sopra ininterruptamente o poema da criação, porém poucos são os ouvidos que o escutam.” Henry David Thoreau



Em 1978, Sérgio Godinho, em tom premonitório, já “me” lançava o alerta : a vida é dura! Quando já se vem ao mundo com o dharma, o yoga e o desejo de alcançar mokṣa no coração (mesmo sem conhecer ainda estes termos, que chegariam muito tempo depois), a única solução é mesmo “cerrar os dois punhos, dizer adeus à desdita e lançar mãos à aventura”, o que acaba por ser tornar natural, à medida que vamos percebendo que há uma Força Benevolente que nos guia a cada instante e que os pequenos e grandes eventos da vida se vão sucedendo, de forma ordenada e estratégica (não, não é por acaso!), por muito difíceis que sejam, até nos encontrarmos inevitavelmente alinhados com o nosso caminho original, de forma a experienciar as consequências do karma acumulado (nesta e nas vidas precedentes) e continuar o nosso percurso de auto-conhecimento, aprendendo a abrir mão do medo, do apego, do ego e, acima de tudo, da ignorância, raiz de todas as outras causas de sofrimento…

“Contudo a minha mágoa nunca me fez ver negro

o que era cor de laranja. Acima de tudo o mundo externo! Eu que me aguente comigo e com os comigos de mim.” Álvaro de Campos heterónimo de Fernando Pessoa



Olhando para trás, parece que andei a preparar-me desde sempre, para este momento único! Fazendo apelo à memória de todas as experiências vividas, consigo discernir sem qualquer sombra de dúvida ou hesitação, a forma como cheguei ao “aqui e agora” de forma voluntária, aceitando os inúmeros desafios que a vida me ia trazendo, desenvolvendo questionamentos profundos sobre mim mesma e sobre o mundo em que vivemos e fazendo escolhas conscientes que me permitem agora vivenciar cada um dos teus dias de forma plena e consciente. Consigo ver, sem equívoco, a que ponto todos os eventos que trouxeste, serviram de elemento catalisador e acelerador para a expansão, não só da consciência de mim mesma, dando um sentido a todas as provas, desafios e privilégios que já tinha vivido até agora, mas também à expansão da consciência de milhões de seres humanos, em todas as partes do planeta, que não consentem em pagar como um privilégio, algo a que sabem que têm intrinsecamente direito : a LIBERDADE!

“Liberdade significa responsabilidade. É por isso que tanta gente tem medo dela.” George Bernard Shaw



Nos minutos que precederam a tua chegada, sentada sozinha no lobby do aeroporto de Bangalore, reconheci a Força Benevolente, a Energia e Luz recebidas durante a minha estadia na Índia, que estava a chegar ao fim. Senti-me grata pelo privilégio de me ter sido possível fazer uma pausa na rotina para, em postura de interiorização, de absorção e de integração, receber tão preciosos ensinamentos como os que tinha acabado de receber, durante a minha estadia em Mysore. Coloquei a intenção de os encarnar plenamente dentro do meu coração, de os colocar em prática a cada instante. Declarei a minha intenção de me alinhar ao Dharma, à Ordem Cósmica e às Leis Universais, a cada dia que passasse. Declarei a minha intenção de continuar a dedicar a luz do conhecimento que tinha acabado de receber e ainda viria a integrar, a minha energia e a totalidade da minha vida ao estudo de mim mesma através do estudo de Vedanta e da prática de Yoga. Declarei igualmente a minha intenção de manter a coragem para confiar sem restrições na sabedoria do Universo, independentemente das adversidades que surgissem no ano que estava prestes a começar (mal eu sabia o que nos trarias…) e a minha vontade de entregar a minha vida e as minhas acções nas mãos de Īśvara, para que cada ensinamento recebido pudesse ser plenamente integrado. Sempre senti que só assim poderia partilhar tudo o que tinha recebido, de forma legítima, com todos os que estivessem dispostos a receber esses ensinamentos milenares através de mim, de forma a que nunca perdessem a sua autenticidade e que eu nunca perdesse a minha integridade (mesmo nos momentos em que me sentisse incompreendida, como tantas vezes aconteceu…). Sem saber ainda, estava a declarar a intenção de ser a Guerreira de Luz, que te preparavas para me (nos) propor que fosse(mos), à medida que te revelarias, dia após dia, mês após mês… Sem saber ainda, estava já a escolher o AMOR, sem saber ainda que nos trarias igualmente a possibilidade de escolher o MEDO, como nunca antes visto na história da Humanidade, tal como a conhecemos… Porque sermos capazes de integrar e manifestar, na realidade e ao quotidiano, a neutralidade emocional proposta proposta pela realização do estado de Yoga, não está em oposição com o facto de ser capaz de “escolher um lado”, de nos posicionarmos face aos eventos exteriores! Do ponto de vista do Absoluto, o objectivo é efectivamente compreender e realizar a NÃO-DUALIDADE, compreender esta Consciência Universal única, que independentemente do nome que lhe dão (Brahman, Īśvara, Puruṣa, Deus…), é a essência de todas as manifestações da natureza, quer elas sejam luminosas (sattva), agitadas (rajas) ou ignorantes (tamas). Mas do ponto de vista relativo, enquanto vivemos no mundo da DUALIDADE, se tivermos como objectivo alcançar essa UNIÃO, então não há como não estabelecer prioridades e escolher a LUZ da Consciência, já que a escuridão que caracteriza a ignorância nunca poderá trazer-nos o Conhecimento de nós mesmos que nos libertará do saṃsāra e do sofrimento que lhe está associado… E tu, 2020, como um verdadeiro mestre espiritual, através das inúmeras adversidades que nos apresentaste, através das experiências únicas que nos proporcionaste (principalmente as que foram muito dolorosas…), trouxeste a cada ser humano a possibilidade de trazer à superfície a sua parte de sombra (fosse ela qual fosse) e à sociedade a possibilidade de se colocar em questão e de se transformar, se assim for o seu desejo sincero.

“Portanto, os objectos só são visíveis na medida em que a luz incide sobre eles e os ilumina; é uma lei no mundo físico e é também uma lei no mundo espiritual.” Omraam Mikhaël Aïvanhov



Não te vou mentir, tendo em conta a intensidade com que te impuseste dia após dia, semana após semana, mês após mês, apanhando a grande maioria das pessoas desprevenidas, sem as ferramentas materiais, psíquicas, emocionais ou espirituais necessárias para lidar com tamanha incerteza, instabilidade e mesmo violência, durante tanto tempo seguido, não é de estranhar que nem toda a gente consiga ou queira ver o que se pode retirar de positivo de tudo o que nos permitiste viver. Para a maioria das pessoas, tu és e serás, sem dúvida, o ano mais detestado de sempre. Tu és aquele que todos querem ver por detrás das costas, com a esperança que, quando fores embora, leves contigo tudo o que trouxeste. Por isso te detestam tanto, por isso querem tanto que chegues ao fim, por isso querem tanto “esquecer-te” e regressar à “normalidade”, que acham que existia antes de tu chegares… Eu compreendo… Mas tendo em conta que o meu objectivo de vida é a Libertação da ignorância e da ilusão e que procuro a Verdade sobre mim mesma, em cada pensamento, cada palavra, cada acção e cada situação, a tua chegada foi uma oportunidade única para tomar de vez o “comprimido vermelho” e abrir os olhos para a Realidade 😉! E, sinceramente, eu preferia não voltar ao “antigo normal”, já que da existência desse antigo, nasceu a possibilidade deste “novo normal”. Um “melhor normal”, sem dúvida! Um normal em que as principais “cadeias de transmissão comunitárias” que ocupam a mente e o coração das populações, veiculam apenas a entre-ajuda, a solidariedade, a equidade, a harmonia, a paz, o amor…

“Não vemos as coisas como são : vemos as coisas como somos.” Anaïs Nin


Por vezes, em conversa com quem discorda de tudo ou parte do que vou partilhando, perguntam-me se não tenho medo de estar enganada, se estou verdadeiramente consciente das consequências das acções que assento na “minha” verdade, acções essas que consideram inconscientes, irresponsáveis, intransigentes e em oposição à “sua” verdade… Mas tu, 2020, partindo do princípio que tiveste a paciência e a coragem de ler tudo o que escrevi até aqui, já deves ter percebido que não assento as minhas acções em “verdades relativas”. Faço a experiência da “minha” verdade e vejo os outros a vivenciar a “sua” verdade, mas nunca me esqueço que a VERDADE não é uma experiência, mas sim CONHECIMENTO. A “minha” verdade e a verdade do “outro” situam-se no plano do dharma/adharma, do bem e do mal, do justo e do injusto, do correcto e do incorrecto. Cada um de nós terá, efectivamente, escolhas para fazer, com a ajuda das suas ferramentas pessoais e através dos seus próprios véus da ignorância. E terá, obviamente, que lidar com as consequências do karman engendrado pelas suas acções. Mas no plano absoluto, o Ātman, a parte divina em nós que não é diferente de Brahman (ou Puruṣa, Īśvara, Consciência ou Deus, conforme as pessoas preferem chamar-lhe) está acima de tudo isso e não é afectado por essa dualidade! Como bem sabes, enquanto representante do tempo e do karman, do ponto de vista relativo, dependendo da nossa posição, podemos afirmar, sem estarmos errados, que o sol “nasce” cada manhã para nos dar luz e calor e depois “põe-se” cada noite, mantendo-se ausente até que volte a “nascer” no dia seguinte. Mas do ponto de vista Absoluto, a VERDADE é que o Sol nunca deixa de brilhar, indiferente e independentemente daqueles que vêem e beneficiam da sua luz e também daqueles que decidem ignorá-la. Da mesma forma, a VERDADE é que apenas através da Luz da nossa Consciência, poderemos ver a nossa verdadeira essência, a nossa pureza, a nossa permanência e reconhecer a nossa eternidade, quem realmente SOMOS além do ciclo da vida e da morte. Sem medo. Sem medo de morrer. Sem medo de viver. Além da dualidade. Para nos libertarmos, finalmente, da própria morte.

“Apenas a mente unidirecionada é capaz de perceber a Unidade.

Nada existe além do Ser. De morte em morte vagueia aquele que vê algo diferente disto.” Kaṭhopaniṣad

Se, ainda assim, dentro desta verdade relativa, desta realidade dual em que vivemos e na qual podemos e devemos constantemente procurar fazer escolhas em acordo com o dharma, se quisermos beneficiar da sua protecção, os teus sucessores viessem a revelar que estava efectivamente enganada (sim, porque só o tempo trará as respostas a todas as questões que tu, 2020, nos trouxeste…), a única coisa dhármica a fazer, será admitir o meu erro, assumir as consequências e tentar reparar, da melhor forma possível e em consciência, todas as implicações kármicas que esse erro possa ter provocado. Pergunto-me muitas vezes, se todos aqueles que declararam publicamente a “sua verdade” e principalmente aqueles que a impuseram aos outros, terão a mesma atitude, caso se venha a verificar que se enganaram…

“Os homens erram, os grandes homens confessam que erraram.” Voltaire



Tu, 2020, que tens um início e um fim, um primeiro e um último dia, tenho a certeza que compreendes. Apesar de termos que nos adaptar de forma saudável a esta dualidade em que vivemos, há limites que não podemos ultrapassar, pois corremos o risco de ver a nossa alma, a nossa essência, a fragmentar-se além do ponto de recuperação… Somos efectivamente todos iguais na nossa essência, mas materializados de forma diferente e, por essa razão, não há duas pessoas que reajam de forma idêntica, face à mesma situação… Há que saber manter a neutralidade face a esta evidência e não emitir qualquer tipo de julgamentos, nem sobre o outro, nem sobre nós mesmos. Mas não podemos abrir mão de nós mesmos, na tentativa vã de não “incomodar” os outros, porque por muito que nos esforçássemos, nunca poderíamos agradar a todos…

“A verdade é uma: antes vale andar descalço do que tropeçar com os sapatos dos outros.” Mia Couto

O meu limite de capacidade de aceitação do que é adhármico, injusto, em oposição à Ordem do Universo, foi sendo testado à medida que iam sendo revelados os números sobre a pobreza e a fome no mundo (que não param de aumentar, incluindo nos países ditos desenvolvidos), mortes por outras razões além do tão famoso vírus (incluindo suicídios entre jovens e idosos como nunca se viu antes), desemprego, restrições do direito de circular, trabalhar, conviver…

E eu fui aguentando e racionalizando tanto que possível, consciente que a VERDADE está além desta dualidade em que a realidade se manifesta… Constantemente fazendo apelo à temperança, à paciência, à neutralidade, apesar de não ser capaz de compreender porque era dado tanto valor a uns números e tão pouco valor a outros…

“A punição que os bons sofrem, quando se recusam a agir, é viver sob o governo dos maus.” Platão



Até que, tal a gota em excesso que faz transbordar o jarro, dei de caras com um artigo de jornal (e olha que eu evito dar de caras com as informações dos meios de comunicação oficiais que, por serem subsidiados essencialmente pelos Governos, têm pouca credibilidade aos meus olhos de “conspiradora”, como fonte de informação imparcial - e entenda-se aqui por “conspiradora”, pessoa comum que se questiona além do pensamento único que lhe é pedido que aceite sem questionamentos…) em que a Autoridade de Saúde “apelou aos suspeitos ou doentes com covid-19 que devido a dificuldades económicas continuam a trabalhar ou a levar os filhos à escola para ficarem em casa e pedirem ajuda, porque há mecanismos para os apoiar”.

E pronto! Aconteceu nesse instante o ponto de ruptura e eu senti que era tempo de me posicionar de forma clara e sem equívocos do lado que EU CONSIDERO como sendo o DHARMA. Não é a Verdade Absoluta e não faço intenções de convencer os outros ou de a impor, obviamente… Mas é a verdade sem a qual não poderia continuar a olhar para mim no espelho, é a verdade que não posso negar, é a verdade sem a qual, muito além do ego, a minha alma não sobreviveria! Na realidade, só quando me esforço para me conhecer a mim mesma, através de um auto-questionamento constante cujo intuito é reconhecer a minha verdadeira essência, além da opinião dos outros, dos seus julgamentos ou projecções, posso determinar quem realmente sou, quem quero ser e de que forma posso cimentar um carácter moral forte. Há certas questões sobre mim mesma e sobre o mundo que me rodeia que me preocupam e que gostaria de ver elucidadas…

“Mais tarde será tarde demais. A nossa vida é agora.” Jacques Prévert



No mesmo dia em que o Parlamento Europeu fez um alerta aos diferentes países de Europa, para que, apesar das medidas necessárias à propagação do vírus, soubessem respeitar a democracia e os direitos fundamentais das populações (nem sequer deveria ser necessário tal alerta, se os Governos estivessem verdadeiramente preocupados com a protecção da saúde e bem-estar das pessoas, não achas?), a Autoridade de Saúde Portuguesa, pedia às pessoas que, apesar das dificuldades económicas, abdicassem do seu direito legítimo de trabalhar e garantir a sua sobrevivência ou a sobrevivência da sua família e “pedissem ajuda”… Eu sei que, desde que chegaste, nós já ouvimos de tudo e mais alguma coisa, mas a sério? A sério? Achas isto normal? E não, não me venhas também tu com a conversa que é pelo bem comum, que é para proteger os outros e proteger-nos a nós próprios, porque quando estamos doentes não devemos trabalhar… Isso toda a gente sabe! Mas toda a gente sabe que ficar em casa a recuperar de uma doença, seja ela qual for, é um privilégio que não é dado a todas as pessoas e NUNCA é dado às pessoas que têm dificuldades financeiras, para quem cada dia é uma luta pela sobrevivência! Será que há pessoas que não sabem isto? E ajuda? E qual ajuda? Que ajuda é essa de que se fala nesse artigo, que o Governo coloca à disposição de quem está “aflito” ou “com uma mão à frente e outra atrás”, como é por vezes dito por quem propõe “falsas ajudas”, que apenas escondem interesses pessoais? Toda a gente sabe que não há, nem houve, verdadeiras ajudas para quem pode e quer trabalhar, mas está a ser impedido de o fazer, com a justificação de proteger a vida dos outros… Toda a gente sabe que essas ajudas são dadas com uma mão e retiradas com a outra! Ou será que há quem acredite que essas ajudas existem realmente (por nunca ter precisado delas…)? E mesmo que existissem, parece-te normal que se abdique da capacidade e dignidade de prover à própria sobrevivência e ao sustento da família (seja qual for a capacidade económica), aceitando tornar-se dependente de ajudas e da caridade de outrem, de forma temporária ou definitiva? Desde quando é que se tornou normal pedir a quem tem uma “cana de pesca” e o Oceano à sua frente, a quem sabe e quer pescar, que abdique dessa possibilidade, para aceitar o peixe que lhe será dado por alguém que, pela sua posição de poder, nunca abdicaria da sua própria rede de pesca? (A história do peixe é uma metáfora, mas não conheço nenhuma metáfora vegetariana que se adapte tão bem ao que quero exprimir). Como chegámos ao ponto de pensar que é uma opção abdicar da própria vida, porque há quem insista em dizer-nos que é a única solução para salvar a vida dos outros? É realmente a única solução? E porque continuam a ser silenciados TANTOS que discordam deste pensamento único? E não, não falo do meu desacordo, mas sim de quem já ganhou prémios Nobel de Medicina ou de Química… E a questão a um milhão de euros é sempre a mesma… Quantas pessoas que estão de acordo com estas regras, estão a receber a totalidade dos seus rendimentos, desde o início da crise? Continuariam a concordar ou pactuar com todas estas medidas, se fossem os seus rendimentos a ser suspensos, congelados ou simplesmente eliminados, de forma imediata e por tempo indeterminado? Se fossem elas a ter dificuldades financeiras? Se fossem elas a precisar da tal “ajuda”? Se fossem os seus filhos a passar fome?

“Eu não acredito em caridade. Eu acredito em solidariedade… Caridade é tão vertical, vai de cima para baixo. Solidariedade é horizontal, respeita a outra pessoa e aprende com o outro. A maioria de nós tem muito o que aprender com as outras pessoas.” Eduardo Galeano



Foi este o último dia em que me foi possível aceitar tamanha quantidade de adharma, alastrado e imposto pelos governantes e pelos meios de comunicação. Este foi o meu limite. Esta foi a minha gota de água. Como de costume, nunca é a pior coisa vista, ouvida ou sentida, que nos faz bascular de um lado para o outro. É sempre um pequeno detalhe… Para mim, foi este artigo, prova irrefutável da inversão de valores que está a ser implementada no nosso mundo, à vista de todos, para ser, um dia, aceite por todos… O sofrimento não tem “graus” segundo as causas que o desencadeiam, já se sabe. É igualmente real se for material, físico, psicológico, emocional ou espiritual. Tanto sofre quem está a ser confrontado à morte por causa de uma doença, como quem está a ser confrontado à morte por causa das medidas draconianas impostas para a erradicar. Porque são tão importantes uns “números” e tão desvalorizados outros?

“… o custo de uma coisa é o custo daquilo a que chamarei de vida necessária para ser dada em troca a curto ou longo prazo.” Henry David Thoreau



E aqui estava eu, face a um artigo onde apareciam claramente “categorizadas” as diferentes fontes de sofrimento, sendo umas desvalorizadas face a outras, sendo invertidos valores e responsabilidades, como se fosse perfeitamente “normal”. Assentando os seus propósitos num apelo à responsabilidade individual, a “autoridade” descarta-se, à vista de todos, da sua própria responsabilidade colectiva. À vista de todos, pensei eu… À vista de todos, gostaria de acreditar…


Mas sei que não, nem toda a gente conseguirá ver esta “minha” verdade (e de tantos, tantos milhões de pessoas pelo mundo fora), resultado da experiência pessoal de quem já “perdeu tudo” nesta ou noutra crise, de forma temporária ou definitiva. Eu tive o privilégio de conseguir reconstruir-me no seguimento dessa crise. Mas sei que esse privilégio não foi e não será dado a todos… E perguntei-me se estaríamos realmente prontos para aceitar com equanimidade, as consequências das decisões tomadas, que continuarão certamente a manifestar-se durante os próximos anos?



Durante os dias que seguiram esta “gota d’água a mais”, perdi o meu centro e perguntei a mim mesma, vezes sem conta, qual era o sentido de continuar a agir com o intuito de ver emergir um mundo mais dhármico, mais justo, onde TODOS possam ser vistos, ouvidos, valorizados, livres para se exprimirem, autónomos, responsáveis, solidários… Um mundo onde a preocupação em “salvar vidas” se aplique a TODAS as vidas, a curto, médio e longo prazo e não apenas algumas vidas… E senti-me muito, muito sozinha, apesar de saber que nunca estou só… Mas sabes 2020, tal como o pequeno detalhe, a pequena “gota d’água” faz transbordar o jarro, é também nos pequenos detalhes que realizamos que não precisamos de jarros, quando temos acesso directo à FONTE! E, uns dias depois, a “fonte” entrou-me pela casa adentro, enquanto almoçava com a minha família, e trouxe consigo o 1º dia de uma nova etapa e a frescura de quem recupera a fé e a confiança na beleza do mundo e na infinita possibilidade de grandeza do ser humano. O meu filho, que tem 12 anos, dizia-nos que gostaria de conhecer a história da Humanidade, mas “não a versão que vem nos livros da escola”, que é sempre determinada e relatada por aqueles que conquistaram os outros, aqueles que ganharam as guerras, aqueles que têm o poder de decidir qual a versão que ficará para a posteridade, como tão bem descrito no livro de George Orwell, “1984”.

“E se toda a gente aceitasse a mentira que o Partido impunha - se todos os documentos apresentassem a mesma versão -,

então a mentira passaria à História e tornar-se-ia a verdade.” George Orwell, 1984

“A Verdadeira história da Humanidade!”, dizia ele, ao que retorqui que era simples chegar a essa resposta. Mas antes que pudesse continuar a responder, o irmão, do alto dos seus 9 anos e com a sua boca desdentada, terminou a frase : “Basta conheceres-te a ti próprio, basta reconheceres a Consciência!”.



E eu calei-me. Sorri. Sorri porque teria sido a minha resposta. Porque poderia ser uma frase minha. Mas não era e nunca tinha sido, já que não cheguei a pronunciá-la… Ela saiu sem filtros de dentro do seu CORAÇÃO!


E, nesse instante preciso, percebi imediatamente qual tinha sido a tua missão, apesar de teres sido o “tão detestado 2020”. Soube igualmente, sem sombra de dúvidas qual era a minha missão nesta vida, apesar de ter sido tantas vezes incompreendida, criticada, julgada e percebi que era tempo de abrir mão do que restava da influência dos kleśa e, mais uma vez, “cerrar os dois punhos, dizer adeus à desdita e lançar mãos à aventura”. Se não por mim, pelos “meus” filhos, cuja SABEDORIA essencial contida em tão poucas palavras, ultrapassou tudo o que foi dito por quem nos “governa” em discursos sem fim, não só ao longo dos teus dias, mas de tantos outros anos que te precederam. Se não por mim, pelos “meus” alunos, que depositaram em mim e nos ensinamentos que recebi dos meus professores, que o receberam dos seus professores e que hoje lhes transmito, a sua CONFIANÇA e dedicação, apesar de serem por vezes confrontados a um desconforto construtivo, que sentem apenas aqueles que sabem que têm que abrir mão do que acham que são, para poderem realmente e simplesmente SER. Se não por mim, por todos aqueles cuja única ajuda que precisam, é que os deixem manter a sua DIGNIDADE e direito a trabalhar, preservar e sustentar a sua própria vida e a vida daqueles que deles dependem. Se não por mim, por todos aqueles que, em nome da saúde, estão a ficar doentes, a sofrer ou a morrer por falta de cuidados de saúde básicos e essenciais. Se não por mim, por todos os seres humanos que desejem, apesar de todas as adversidades que encontram ao longo da vida e sem nunca perder a fé, a energia, a memória, a concentração e a disposição para utilizar a alta inteligência, além de todas as verdades relativas, alcançar a VERDADE e reconhecer a sua verdadeira essência, o SER PLENO e CONSCIENTE que realmente são, livres de avidyā, livres de duḥkha (sofrimento) e, finalmente, ser LIVRES (mokṣa) e FELIZES (sat-chit-ānanda : Existência-Consciência-Felicidade).



Sūtra I.20

श्रद्धावीर्यस्मृतिसमाधिप्रज्ञापूर्वक इतरेषाम्॥२०॥

śraddhāvīryasmṛtisamādhi-prajñāpūrvaka itareṣām 20

«Para os outros, a fé, [precede] a energia, a memória, a concentração, a alta inteligência [tomadas de consciência]».



Não me compreendas mal, continuarei a dar o meu melhor para manter a neutralidade e respeitar a posição de todas as pessoas que consideram que estão, elas sim (ou também), do lado do dharma, apesar de aparentemente se encontrarem do lado oposto ao que escolhi claramente e sem equívocos, nesse preciso instante. Não tenho qualquer intenção de interferir com o seu ponto de vista, nem tão pouco de interferir com o seu livre-arbítrio. Eu compreendo o ponto de vista de cada um. Simplesmente, com um instinto de auto-preservação e sobrevivência, é tempo de deixar de resistir à minha natureza essencial e de me extrair, tanto quanto possível, deste sistema de valores invertido que sempre existiu, mas ao qual tu, 2020, vieste trazer uma nova luz e consciência. Sempre houve mentira, corrupção, desigualdades, manipulação, violência e interesses pessoais acima de interesses comuns… Provavelmente, continuará a haver para sempre… Não foste tu que nos trouxeste tudo isso, tu limitaste-te a levantar o “tapete” para debaixo do qual todos os problemas do mundo eram varridos, para que ficassem longe do nosso olhar, para que continuassem banalizados ou ignorados. Algumas pessoas vão continuar a não querer ver, outras vão fazer de conta que não vêem a sujidade que começaste a revelar, outras vão dizer que não foram elas que sujaram e que não é da sua responsabilidade limpar, outras ainda, vão pagar a alguém para limpar, porque serão incapazes de mexer na sujidade com as próprias mãos, quer sejam responsáveis por ela ou não, e outros vão simplesmente arregaçar as mangas e limpar tudo, porque o mais importante não é saber quem é que sujou e quem é que tem que limpar, mas sim limpar tudo e trazer novamente a Ordem Cósmica e as Leis Universais à ordem do dia! E eu preciso de me recolher, descansar e proteger para, após tantos meses de transformação e transmutação, conseguir recuperar as forças necessárias para iniciar essa difícil limpeza (interior e exterior), para a qual a minha alma me encaminha… O que achas 2020, marcamos encontro para 2025, para ver como a Humanidade escolheu lidar com tudo o que nos trouxeste? Achas que, daqui até lá, o tempo vai trazer a união a todas as verdades relativas e revelar-nos a VERDADE? Achas que sobreviveremos ao vírus, à fome, ao medo? Achas que teremos tido a coragem necessária para reconhecer que está dentro de nós a cura para o nosso sofrimento?

“O tempo faz mais convertidos do que a razão.” Thomas Paine



Daqui até lá, e caso tenha o privilégio de lá chegar, fica sabendo que podes encontrar-me ao lado do dharma. Não estarei só (às vezes parece que sim, mas isso é apenas uma ilusão…), apesar do caminho do dharma (assim como o de mokṣa) ser bastante exigente, o que leva a maioria das pessoas a optar por dedicar a sua vida a artha(segurança material) ou kāma (prazer dos sentidos). Todos eles são objectivos de vida válidos e, desde que o dharma seja ainda assim respeitado, não há razão para achar que um caminho é melhor ou mais legítimo que o outro. Mas quando temos o coração aberto e livre do medo, do apego, da repulsa, do ego e da ignorância e estamos dispostos a alcançar a LIBERDADE (mokṣa), o impulso para nos conhecermos a nós próprios, Divinos, Soberanos e Livres, será sempre mais forte que o MEDO e toda e qualquer dualidade poderá assim ser transcendida.

“Assim como o sol, que é o olho do céu, não é manchado pelo defeito em nossos próprios olhos ou pelos objetos que ele ilumina, da mesma forma o Ser, vivendo nos corações de todos,

permanece intocado pelos males do mundo, pois tudo transcende.” Kaṭhopaniṣad



É isto. Penso que te disse tudo o que precisava de te dizer, para libertar de vez o coração de todas estas palavras, que já não cabiam dentro do meu peito. Muito provavelmente não me leste até ao fim, mas não faz mal. Escrever (muito ou pouco) sempre foi uma escolha minha. Ler-me (tudo, nada ou uma parte) é uma escolha tua. Escolher o que ressoa contigo também é da tua responsabilidade. E a decisão de me escutares com a mente ou permitires que o teu coração sinta a vibração do meu, é também uma escolha tua. Não quero que sintas que interfiro com o teu livre-arbítrio… Eu defendo a LIBERDADE, tanto no plano relativo como no Absoluto!




“O Grande Ditador” - Charles Chaplin - 1940

80 anos depois, a mesma “verdade”…



À medida que fui escrevendo todas estas palavras, à medida que fui esvaziando o meu peito, ficou apenas o silêncio interior, necessário para acolher em paz, confiança e harmonia o que ainda sobra de ti e, a seguir, abraçar o teu sucessor. Sem expectativas. Porque o mais importante não é o que ele vai trazer na bagagem quando chegar até mim, mas sim o que eu levo na bagagem quando chegar até ele… Para que tenha a coragem de nunca aceitar que me ditem o que fazer, o que pensar, o que sentir! Porque também eu levo o amor da Humanidade, no meu coração! 💜 Despeço-me, muito cansada, mas muito grata! Por tudo o que trouxeste e por tudo o que levaste. Porque além desta dualidade em que vivemos, sempre fomos, SOMOS e sempre seremos UNIÃO! Namaste,

Rita »



ॐ असतो मा सद्गमय । तमसो मा ज्योतिर्गमय ।

मृत्योर्मा अमृतं गमय । ॐ शान्तिः शान्तिः शान्तिः ॥

oṁ asato mā sad gamaya tamaso mā jyotir gamaya

mṛtyor mā amṛtaṁ gamaya oṁ śāntiḥ śāntiḥ śāntiḥ

Oṁ

Possamos nós ser conduzidos da ilusão para a verdade.

Possamos nós ser conduzidos da escuridão para a luz.

Possamos nós ser conduzidos da morte para a imortalidade.


Que haja Paz, Paz, Paz.



ॐ लोकाः समस्ताः सुखिनो भवन्तु

ॐ शान्तिः शान्तिः शान्तिः॥

Oṁ lokā samastā sukhino bhavantu

Oṁ śāntiḥ śāntiḥ śāntiḥ

Hariḥ Oṁ 

Oṁ

Que todos os seres, em todos os lugares, sejam felizes.

Que haja Paz, Paz, Paz.



Obrigada por me lerem… Com todo o meu amor e carinho, desejo-vos coragem, bons questionamentos (hoje e sempre) e boas práticas… Dentro e fora do tapete! Para que um dia, possamos ver no mundo, a mudança que ocorre em nós através do Yoga!

Namaste, 🙏💚🌿 Rita



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