O Dharma

Se estiver a considerar a frequência das aulas no Padma Yoga Shala🌿, por favor verifique primeiro que ressoa com estes princípios e que se sente disposto a praticá-los com o mesmo interesse e dedicação que as posturas (āsana). Eles constituem a base e as fundações do Yoga, assim como de toda a estrutura energética e vibratória da prática, das aulas e do próprio espaço.

Namaste

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Bhagavad-Gītā III, 35

śreyān sva-dharmo viguṇaḥ para-dharmāt sv-anuṣṭhitāt

sva-dharme nidhanaṁ śreyaḥ para-dharmo bhayāvahaḥ 

« O cumprimento dos teus próprios deveres, mesmo que sejam modestos, é melhor que o cumprimentos dos deveres alheios, mesmo que sejam os mais elevados. É melhor terminar a encarnação cumprindo o teu próprio dharma! O dharma alheio está cheio de perigo! » 

Agir de acordo com o seu dharma (e mais particularmente com o seu svadharma, como veremos mais à frente) é uma forma de estar consciente das suas capacidades, da sua vocação, de agir em harmonia com as suas vāsanā (tendências), fortalecendo as que necessitam de apoio, controlando as que são prejudiciais à nossa evolução, sem exigir de nós próprios a sua aniquilação total, o que muitas vezes é impossível e cuja tentativa resultaria apenas em frustrações e certamente na criação de novos saṃskāra e vāsanā. É igualmente uma forma de respeitar o Divino dentro de nós, o que nos traz uma serenidade apenas possível quando sabemos que agimos da melhor forma, para realizar o que mais nos corresponde, apesar das dificuldades que possam surgir e dos esforços necessários para as ultrapassar. 

 

Agir de acordo com o seu dharma pessoal é também aceitar, de forma consciente, as consequências das nossas acções passadas, sejam elas quais forem, quer nos lembremos delas ou não. Isto não quer dizer que devemos instalarmo-nos numa atitude passiva face aos acontecimentos da vida, pensando que merecemos tudo o que nos acontece e que, por essa razão, não vale a pena lutar por um presente ou um futuro melhor. Antes pelo contrário, para se agir de acordo com o seu svadharma, é indispensável AGIR! Swāmi Vivekānanda diz-nos que quando realizamos convenientemente o nosso dever, seja qual for a situação na qual a vida nos colocou, e que não nos apegamos aos resultados, somos conduzidos à mais elevada realização da perfeição da alma (1).

 

Segundo o Yogasūtra, é-nos afirmado que o karman tem a sua origem nos kleśa e que todas as acções, enquanto estiverem enraizadas nas causas do sofrimento, são geradoras de consequências, de mais karman(2). Para mim, ao longo deste longo e contínuo processo de tomada de consciência da influência dos kleśa na minha vida, a compreensão da estreita ligação que existe entre karman e dharma, que me levou em seguida a uma reflexão profunda sobre o meu svadharma, foi um dos passos mais importantes que efectuei, a partir do momento em que percebi que estava a enveredar por uma longa e contínua busca espiritual que me ajudaria a relembrar Quem Sou Eu. Através da compreensão e integração da Lei do Karman e do Dharma, surgiu igualmente o meu interesse pelo Karmayoga (Yoga da Acção), que me trouxe até onde me encontro hoje. Desde então, constantemente observo a evolução do meu svadharma de forma particularmente atenta (sabendo que é mutável e evolutivo!), verificando a compatibilidade das minhas acções com ele, tentando agir em Karmayoga, sem apego aos frutos das acções e limitando, tanto quanto possível, a influência dos kleśa na minha vida. É um trabalho constante que exige disciplina e esforço pessoal, mas os seus benefícios são infindáveis e a cada dia que passa, sinto que me aproximo um pouco mais da minha Verdadeira Essência e Natureza Divina.

 

O termo Dharma (3), derivado da raiz verbal dhṛ, é um termo praticamente impossível de traduzir, pois os seus significados são numerosos e todos indissociáveis, mas os hindus atribuem-lhe geralmente o sentido de “Ordem Cósmica”. Shrī Aurobindo diz-nos que : dharma significa literalmente o que nos mantém e que é o vínculo de todas as coisas, a lei, a norma, a regra da natureza, de acção e da vida.” (4). O “Sanskrit Heritage Dictionary” (5) de Gérard Huet inclui entre os seus significados, lei, condição, natureza pessoal; lei física, ordem natural; dever ou legislação; bem, virtude, justiça ou mérito.

 

O dharma é a natureza essencial de tudo e aplica-se tanto a um ser único, como a uma colectividade organizada, a uma espécie, ao conjunto de todos os seres durante um ciclo cósmico ou estado de existência, ou mesmo à ordem total do Universo. Compreende o conjunto das qualidades ou características de cada coisa e determina o seu comportamento, na sua totalidade ou em cada circunstância particular. O seu significado muda segundo o ponto de vista e a situação : Do ponto de vista científico, o dharma é a propriedade característica ; do ponto de vista moral e legal, é o dever ; do ponto de vista psicológico e espiritual, é a religião e tudo o que ela implica ; de um ponto de vista geral, é a justiça e a lei ; mas acima de tudo, é o dever” (6)

 

Considerado como equivalente de Brahman, o Absoluto (por vezes é mesmo referido nos textos sagrados como sendo-lhe superior (7)), e não como expressão de uma Vontade Divina, podemos ver no dharma o que faz com que cada coisa esteja no seu lugar e desempenhe o seu papel na Ordem Cósmica. É uma lei de coesão interna que mantém os organismos, sejam eles individuais, sociais ou cósmicos, na sua própria forma, impedindo-os de degenerar. É igualmente algo que une todos os seres através de um elo de direitos e deveres mútuos.  

 

O dharma dá também o nome ao Hinduísmo, a que os hindus não chamam uma religião mas sim Sanātana Dharma (que poderia traduzir-se por “Lei Eterna” ou dharma eterno ou universal).

 

O dharma pode ser visto na forma de uma aplicação geral (sāmānya-dharma) ou discriminada (viśeṣa-dharma). Indo além da ideia de Ordem Cósmica, ou seja, passando de um significado universal a uma aplicação individual, temos por exemplo o mānava-dharma, o dharma da raça humana, o bhārata-dharma, o dharma específico da Índia, o rāja-dharma, o do soberano, o kula-dharma, o de uma família ou de uma comunidade ou o svadharma, o dharma individual de cada ser humano, que tem um papel considerável nas suas vidas. Segundo a concepção de svadharma, cada ser humano possui um dharma, uma forma de agir e de viver que é rigorosamente e exclusivamente sua, com base na sua Missão de Vida

 

Segundo a Lei do Dharma, considera-se que cada indivíduo, ao agir (karman) em função do seu dharma (carácter essencial, dever moral, virtude, etc…), está a evoluir no bom sentido, enquanto se agir contra o dharma (adharma) será conduzido à ignorância e à servidão. Ou seja, agindo em função da Ordem Cósmica está a evoluir, caso contrário estará a entravar a evolução, vivendo sob a influência dos kleśa e gerando cada vez mais sofrimento. 

 

O dharma é igualmente considerado um dos quatro objectivos (caturvarga) possíveis do esforço humano (puruṣārtha) : dharma-artha-kāma-mokṣa . Nesta lista, os três primeiros (trivarga) permitem melhorar as condições de vida durante a existência neste mundo, assim como as condições dos renascimentos futuros (pravṛtti mārga). Artha é a procura da perfeição do ponto de vista material, Kāma, do ponto de vista sensorial, sensual e sentimental, Dharma, do ponto de vista moral e mental. O quarto e último, Mokṣa, que é considerado o mais elevado de todos (parama-puruṣārtha), é a libertação espiritual atingida através da via da renúncia (nivṛtti mārga).

 

Seja na Índia ou em qualquer outra parte do mundo, acredito que a partir do momento em que iniciamos uma procura espiritual, as questões : “Quem sou eu?” e “O que faço aqui?”, “Qual é o caminho certo para mim, neste momento?” ou ainda “Como devo agir?”, são questões que surgem naturalmente e que na minha opinião estão estreitamente ligadas às noções de karman, dharma e svadharma. As dúvidas surgem muitas vezes, resultado da mistura entre o que é inato e o que é adquirido,  da observação das nossas tendências (vāsanā), da presença de impressões mentais inconscientes (saṃskāra), da importância que escolhemos atribuir à opinião dos outros, e por vezes, acompanham-nos durante grande parte da nossa vida (e se tivermos em conta a lei do saṃsāra, possivelmente mesmo durante várias vidas). Como podemos realmente compreender o dharma, já que esta noção nos aparece como particularmente flexível e qual será realmente o nosso svadharma, como poderemos ter a certeza de que estamos no caminho certo, que as nossas acções são justas, que estamos a respeitar tanto a nossa natureza como a parte de divino dentro de nós? 

 

Estas questões, que já tinha colocado a mim própria ao longo de uma grande parte da minha vida, ainda mesmo antes de conhecer o Yoga, ou de ter ouvido falar de dharma e svadharma, tive igualmente o privilégio de a colocar a pessoas que respeito e admiro, pessoas cujo conhecimento e realização do yoga ultrapassam de longe o meu. O Mestre Georges Stobbaerts disse-me que para obter a resposta era indispensável o Discernimento (viveka), a professora Ruth Huber falou-me de Intuição, de escutar a sua “voz interior” e o yogin Walter Ruta, discípulo de Srī Srī Srī Satchidananda Yogi fez referência ao saber “escutar o coração”. Três respostas diferentes, dadas por três pessoas diferentes, mas sempre a mesma base. Quando respeitamos o nosso dharma pessoal, mesmo face às dificuldades, nos momentos em que nos falta a coragem, quando a opinião dos outros é desfavorável, existe apesar de tudo uma Paz interior, resultado de uma certeza ou de uma inabalável (śraddhā) de que estamos no caminho certo.  

 

Para quem escolhe enveredar por um caminho espiritual, a descoberta do svadharma torna-se um percurso de todos os dias, de cada instante, e é criando a ligação com o Divino dentro de nós, escutando a voz do nosso Coração, a nossa Intuição, o nosso Eu Superior, que alcançamos esse Conhecimento. Cada um de nós tem a possibilidade de escolher o seu caminho e a forma como decide viver a sua vida, ninguém tem o direito de interferir com o nosso Livre-Arbítrio! A vida surge-nos então como uma constante ocasião de desenvolvimento pessoal e espiritual e cada momento, cada pensamento, cada palavra, cada acção, cada contacto com os outros, pode ser encarado como uma ajuda para primeiro descobrir e, em seguida, respeitar o nosso svadharma. Com discernimento, tal como nas palavras de Kṛṣna, no śloka III, 35 e XVIII, 47 da Bhagavad-Gītā : O cumprimento dos teus próprios deveres, mesmo que sejam modestos, é melhor que o cumprimentos dos deveres alheios, mesmo que sejam os mais elevados. É melhor terminar a encarnação cumprindo o teu próprio dharma! O dharma alheio está cheio de perigo!” e “É melhor cumprir as próprias obrigações, ainda que sejam insignificantes, do que cumprir as obrigações de outro, mesmo que sejam elevadas! Cumprindo as obrigações que seguem a sua própria natureza, o homem não incorre em pecado (reacção kármica)”.

Nem sempre é fácil realizar o nosso svadharma, mesmo quando o conhecemos e temos a certeza de que realizá-lo é o melhor que podemos fazer por nós.  Por momentos, sob a influência dos kleśa, surgem as suas diferentes manifestações, como o egoísmo, as dúvidas sobre as nossas reais capacidades, as hesitações sobre a melhor forma de agir. Mas a aceitação daquele que é neste momento o nosso dever, o nosso svadharma, manifestado a partir da probabilidade da mais elevada expressão da nossa Alma e que escolhemos e abraçámos (nesta ou noutras vidas, quer tenhamos essa consciência e recordação, quer não), leva-nos a viver momentos muito intensos de aprendizagem e conhecimento de nós mesmos. 

 

Quando observo o meu svadharma e sinto que ele se está aos poucos a transformar, tento adaptar-me aos novos requisitos que vão surgindo na minha vida, sem nunca me esquecer das palavras de Kṛṣna, nos śloka XVIII, 45 e 46

 

O homem avança para a Perfeição cumprindo o seu próprio dever com diligência. Escuta sobre como chega à Perfeição aquele que cumpre o seu dever diligentemente!”

 

Através do cumprimento do seu dever e da adoração Àquele que permeia tudo e pela Vontade de quem todos os seres se originam, o homem alcança a Perfeição! ” 

 

Sei que esta é a única forma de poder continuar a dar o melhor de mim própria e aceitar o que a vida tem para me oferecer, com e Confiança de que cada instante é um dom que a vida nos dá, para podermos ir um pouco mais longe na procura do nosso verdadeiro SER. A minha Intenção, o meu Consentimento e a minha Autoridade estão em Deus e apenas em Deus e é assim que avanço, dia após dia. Dentro das minhas capacidades, aplico estes ensinamentos ao quotidiano, ao mesmo tempo que coloco a minha Força e a minha Coragem nas mãos de Deus, para que possa, a cada instante, ser conduzida à sua melhor utilização, para servir o Bem Comum

 

Nada é mais precioso à minha Alma e Coração que a possibilidade de Libertação da Consciência para TODOS e sinto profundamente que a compreensão e a realização das Leis Universais, do Dharma e do Karma, é indispensável para a expansão da nossa consciência e espiritualidade e, por isso, partilho convosco as minhas próprias integrações resultantes do meu caminho espiritual ao longo dos anos. Apesar de a maior parte deste texto ter sido extraído da minha tese final apresentada no final da formação de Professores de Yoga, em 2012 (já lá vão dez anos!), esta Sabedoria situa-se além do espaço e do tempo, e pode ser sentida e integrada em cada uma das nossas células, a partir do momento em que são reconhecidas as distorções que lhe foram sendo sobrepostas ao longo dos milénios por inúmeras adaptações e interpretações e que, como de costume, acolhemos apenas aquilo que ressoa connosco…

 

Assim, peço-vos, usem o vosso Discernimento, acolham apenas o que ressoa convosco e deixem que a Verdade faça o seu justo caminho, ou seja, de dentro para fora, segundo a Ordem Divina e dentro do Tempo Divino

1. Swâmi Vivekânanda. Les Yogas pratiques, éd. Albin Michel, col. Spiritualités Vivantes, Paris, 2005, p. 64.

2. Cf. Yogasūtra II, 12, 13 e 14. 

3. Jean Herbert et Jean Varenne. Vocabulaire de l’Hindouisme, éd. Dervy-Livres, col. «Mystiques et Religions», Paris, 1985, p. 44 : «dharma, m. (Rac. DHRI). Ordre universel cosmique; loi éternelle ; morale ; devoir ; vertu ; droiture. Avec artha, kâma et moksha l’un des quatre grands objets des aspirations humaines. Parfois employé pour svadharma.».

4. Shrî Aurobindo (présentée et commentée par). La Bhagavad-Gîtâ, traduction française de Camille Rao et Jean Herbert, éd. Albin Michel, col. Spiritualités Vivantes, Paris, 2008, p. 41.

5. Ver https://sanskrit.inria.fr/DICO/34.html#dharma .

6. Cf. Jean Herbert. Spiritualité Hindoue, éd. Albin Michel, col. « Spiritualités Vivantes », Paris, 1972, p. 117.

7. Idem, p. 118 : « E Brahman, o Absoluto,  é representado como produzindo “acima d’Ele, uma força superior, o dharma ; o dharma é a soberania da soberania. É por isso que nada é superior ao dharma.” » (Brihad-âranyaha Upanishad, I, 4, 14) (tradução livre).

 

Com Amor e Reverência, Rita